ESCOLHAS
Numa de suas viagens missionárias, Paulo se encontra em Atenas e assim se
expressou: “Observando, ao passar, as vossas imagens sagradas, encontrei até um
altar com esta inscrição: ‘A um deus desconhecido’. Pois bem, aquilo que adorais sem
conhecer, eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo
Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mão humana. Também
não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa; pois é ele que
dá a todos vida, respiração e tudo mais. De um só homem ele fez toda a espécie
humana, para habitar sobre toda a face da terra, tendo estabelecido o ritmo dos
tempos e os limites de sua habitação. Assim fez, para que buscassem a Deus e, talvez
às apalpadelas, o encontrassem, a ele que na realidade não está longe de cada um de
nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (cf. At 17,23-27). Nossa fé cristã
professa a certeza de que na vontade de Deus nós fomos criados à sua imagem e
semelhança, e nele se encontra nossa realização e nossa felicidade.
Ao nos criar e salvar, Deus oferece uma proposta a ser acolhida no mistério de
nossa liberdade, pedindo uma resposta livre e o acolhimento ao seu amor. Por
misteriosos caminhos Deus entra na vida de cada pessoa. Há poucos dias, celebramos
Santa Josefina Bakhita, uma Santa Virgem de origem africana, vinda do terrível
ambiente da escravidão. Por estes caminhos, veio a se tornar Religiosa Canossiana.
No convento, a seu pedido, Bakhita conhece aquele Deus que desde pequena “sentia
no coração, sem saber quem ele era”.
São João Paulo II descreveu de modo admirável a resposta dada por Bakhita
ao chamado de Deus: “Na Beata Josefina Bakhita, encontramos uma testemunha
eminente do amor paternal de Deus e um sinal esplendoroso da perene atualidade
das bem-aventuranças. No nosso tempo, em que a corrida desenfreada ao poder, ao
dinheiro e ao prazer causa tanta desconfiança, violência e solidão, a Irmã Bakhita e?
nos dada de novo pelo Senhor como irmã?universal, porque nos revela o segredo da
felicidade mais verdadeira: as bem-aventuranças. A sua mensagem e? uma mensagem
de bondade heroica, a? imagem da bondade do Pai celeste. Ela deixou-nos um
testemunho de reconciliac?ão e de perdão evangélicos, que levara? certamente conforto
aos cristãos da sua pátria. A sua fidelidade e esperança são motivo de orgulho e de
ação de graças para toda a Igreja. Neste momento de grandes tribulações, a Irmã
Bakhita os precede na via da imitação de Cristo, do aprofundamento da vida cristã e
da inabalável dedicação a? Igreja”. (cf. Homilia de São João Paulo II - L’Osservatore
Romano, 18 de Maio de 1992)
E a Liturgia que celebramos no sexto domingo do Tempo comum nos
proporciona o contato com a proposta de Deus enunciada nas bem-aventuranças (Lc
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6,17.20-26), nas quais somos chamados a escolhas diferentes diante da “corrida
desenfreada ao poder, ao dinheiro e ao prazer”. De fato, o caminho da felicidade
verdadeira é diferente de tal corrida!
Deus não nos oferecer uma espécie de mágica e nem mesmo uma vacina contra
tudo o que nos atrapalha. Somos homens e mulheres peregrinos de esperança num
mundo diversificado e tantas vezes provocante, diante do qual há que fazer escolhas
e buscar rumos diferentes. Vindo até nós para nos salvar, Nosso Senhor experimentou
no deserto tentações semelhantes (cf. Mt 4,3-11), quando o demônio o provoca,
sempre usando de modo inadequado a própria Palavra de Deus, incitando-o a não
aceitar as condições da vida humana nesta terra, que Jesus tinha abraçado por nosso
amor, ou oferecendo-lhe a possibilidade de fama e elogios por feitos esplendorosos,
ou ainda a riqueza de todos os povos, baseada numa mentira na qual o diabo se diz
proprietário de tudo! E Jesus resiste bravamente, ensinando-nos o caminho!
Deus nos deu a responsabilidade de cuidar de toda a terra, com as magníficas
e desafiadoras forças da natureza. Entretanto, este poder se transforma em tentação
e pecado quando nos conduz à irracionalidade de pretender tudo qualquer coisa e
autoridade sobre os outros, mesmo no pequeno espaço de controle que tivermos.
Todas as épocas da história mostram poderosos deste mundo caindo na tentação do
domínio, que leva até a pretender castigar os mais fracos e limitados, pessoas ou
nações!
As riquezas da terra e da natureza, ou aquelas que são conseguidas através do
trabalho humano são importantes e podem ser saudáveis, mas se transformam em
tentação e pecado, que podem começar pelos “sonhos de consumo”, as provocações
para adquirir de tudo e de qualquer forma, até chegar ao domínio exercido pelas
nações mais ricas de nosso mundo, na busca incontrolável da riqueza, edificada como
um ídolo para pessoas e grupos sociais.
Deus quer que todos sejam felizes, de bem com a vida, não impingindo o
sofrimento a quem quer que seja. Entretanto, o que São João Paulo II chamou de
busca desenfreada, faz com que o prazer se torne também ele um ídolo tentador e
pecaminoso quando se transforma numa verdadeira exploração de pessoas e das
forças da própria natureza, como a sexualidade descontrolada e compreendida como
uma fonte de satisfação egoísta.
A Palavra de Deus, extremamente provocante, nos é dirigida pelo Profeta
Jeremias. Maldito ou bendito! Bem-aventurado ou mal-aventurado! "Maldito o
homem que confia no homem e faz consistir sua forc?a na carne humana,
enquanto o seu coração se afasta do Senhor como os cardos no deserto,
ele não vê chegar a florac?ão, prefere vegetar na secura do ermo,
em região salobra e desabitada. Bendito o homem que confia no Senhor,
cuja esperanc?a e? o Senhor; e? como a árvore plantada junto às águas,
que estende as raízes em busca de umidade, por isso não teme a chegada do calor:
sua folhagem mantem-se verde, não sofre míngua em tempo de seca
e nunca deixa de dar frutos". (Jr 17,5-8). E vale recordar a palavra do Deuteronômio:
“Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, amando ao Senhor teu
Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele – pois ele é tua vida e prolonga os
teus dias –, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais” (Dt
30,19-20). A escolha é nossa, e o resultado é felicidade autêntica e verdadeira, aqui e
na eternidade!
DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
ARCEBISPO METROPOLITANO DE BELÉM/PARÁ
FONTE: www.arquidiocesedebelem.org.br