XXII DOMINGO COMUM – MARCOS 7,1-8.14-15.21-23 - Juan Diego Giraldo Aristizábal, PSS
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XXII DOMINGO COMUM – MARCOS 7,1-8.14-15.21-23
O Evangelho parte de um fato - “alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras” (v.2) - e de uma questão - “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” (v.5) - para desenvolver um ensinamento de Jesus. É sabido que os judeus cumpriam certos rituais de purificação que os “qualificavam” para o culto a Deus e expressavam a sua religiosidade. (cfr. Êxodo 40; Levítico 15; Números 19; Isaías 6,5-6). O problema era que, a partir da lei escrita, se criaram um monte de leis orais que faziam complicada a vida cotidiana, e fazendo as especificações da Lei mais importantes que a própria Lei e o seu espírito. Como responde Jesus a este questionamento?
1. Hipocrisia: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (v.6). Agem como atores de teatro (usam uma máscara que oculta a sua verdadeira identidade), aparecem puros, mas tirando as suas máscaras estão impuros. Confundem a limpeza corporal com a pureza do coração. Mãos limpas não querem dizer coração puro (que é o que Deus pede). O problema não é lavar as mãos (que é sinal de pureza), mas buscar fazer real a pureza de coração pelas “mãos limpas”. Se trata de ir ao essencial sem perder-se em coisas secundárias. “Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27). Como, então, ser puro?
2. Escutar: Tiago nos lembra: “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”, ou seja, saber escutar e não só ouvir. Ouvir é fazer uso do órgão do ouvido e escutar é ouvir desde o coração para que o que foi ouvido se transforme em vida (critério para o agir). De fato, o primeiro convite de Moisés ao povo é “Ouve, Israel” (Dt 4,1). Só ouvindo haverá o suficiente discernimento para saber o que vem de Deus e o que vem dos homens que ofusca a vontade de Deus (cfr. v.8). Também o ensinamento de Jesus hoje inicia com um imperativo “Escutai, todos, e compreendei” (v.14b). Assim, o primeiro passo para ter um coração puro é ter a atitude do discípulo, que aos pés do Mestre, aprende pela escuta. Em outros termos, quem pode formar o nosso coração puro é Deus e para isso é preciso ouvi-lo. Pela escuta, desvelemos uma realidade muito bela que há em nós: pelo dom do Espírito fomos capacitados para amar!
3. Coração: a proximidade a Deus não se dá pelos ritos, mas pelo coração (cfr. v.6). O coração é o centro da pessoa de onde brotam as suas grandes decisões e aonde se afincam as suas autênticas convicções (valores assumidos). Assim, a pureza se define no coração: “o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é dentro do coração humano que saem as más intenções” (vv.15.21). Assim, temos que cuidar em primeiro lugar da interioridade porque é aí onde se vão gerando as nossas decisões e ações. Muitas de nossas ações não surgem de forma espontânea, mas se vão construindo interiormente até sair ao exterior. Por isso é importante cuidar de nossas intenções, paixões, sentimentos, intuições, afetos, emoções... enfim, do coração. Para quê mãos limpas se o coração está impuro? Para quê atos piedosos se somos coniventes com a injustiça e não praticamos a misericórdia?
Deixemos que pela escuta Deus forme o nosso coração. Não podemos substituir a interioridade pela exterioridade e devemos fazer da exterioridade uma autêntica expressão dum coração purificado por Deus. Por isso, só um coração puro é capaz de amar e fazer presente Deus na história.
Juan Diego Giraldo Aristizábal, PSS